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Igrejas evangélicas unidas contra a violência doméstica em Umarizal

Umarizal é um município que possui pouco menos de 11 mil habitantes e está localizado na região semiárida do oeste do Rio Grande do Norte, a 314 km de Natal, a capital do Estado. A localidade vive basicamente da agricultura familiar e tem o comércio como segunda atividade econômica mais importante. 

Apenas por essas características, Umarizal teria tudo para ser considerada uma pacata cidade do interior. Entretanto, o município desponta nas pesquisas como o primeiro entre os doze municípios da região do oeste mais violentos de todo o Estado do Rio Grande do Norte. Os dados são do Mapa da Violência do Rio Grande do Norte – 2011, elaborado pela Secretaria Estadual de Defesa Social, e foram obtidos a partir da comparação entre o número de habitantes do município, 10.669, e o número de homicídios registrados, 14 apenas no ano de 2011. O resultado é uma taxa de homicídios de 131,22. 

Os homicídios configuram uma das expressões da cultura de violência arraigada na região. As agressões domésticas também estão presentes como uma das faces dessa cultura violenta tão disseminada na região. Apesar de esse tipo de crime ser uma realidade conhecida de todos, faltam órgãos específicos e infraestrutura adequada para produzir dados que apresentem a real situação de violência de gênero em que vivem as mulheres de Umarizal.

Mas a luta contra a violência doméstica ganhou uma aliada com a reestruturação da Ordem de Pastores e Líderes Evangélicos de Umarizal (OPU), em outubro de 2011. A Ordem, criada em 2004, atuou até o ano de 2006, realizando encontros com pastores de igrejas evangélicas. Com a reestruturação, foram mobilizados pastores de 10 igrejas e outros 16 líderes. Composta por 26 integrantes, a OPU retoma suas atividades, nas áreas urbana e rural, motivada pelas demandas da população e de líderes evangélicos de Umarizal. “Sinto que há uma diferença enorme entre esta e a outra composição da Ordem, sobretudo na forma de atuação. Agora, nós estamos realizando o trabalho com a população evangélica e contribuindo com toda a sociedade”, avalia o pastor Wiliam Fernandes, da Igreja Batista Filadélfia.

Desde a retomada das ações, a OPU já vem movimentando o município com várias ações sociais. No dia 25 de novembro de 2011, celebrou o aniversário de Umarizal na quadra da escola 11 de Agosto, contando com a participação de 700 pessoas e a representação de 08 igrejas.


O 1º Despertai, realizado no dia 11 de dezembro de 2011, reuniu mais de 600 pessoas, 110 carros e quase 300 motos na Caminhada pela Paz. Mais de mil pessoas estiveram reunidas na Praça Humberto de Souza, louvando e adorando ao Senhor e celebrando o Dia da Bíblia.

A Ordem surpreende a população que antes não reconhecia o papel da igreja em ações sociais. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Umarizal (RN), Eliete Bezerra, se diz impressionado com o poder de mobilização da OPU. “As igrejas mobilizam das crianças aos mais idosos e conseguem fazer com que todos participem. Tem sido muito interessante essa maneira de as igrejas trabalharem juntas em Umarizal”.

Outra data escolhida pela OPU para mobilizar a população e as igrejas evangélicas na luta por mudanças foi o Dia Internacional da Mulher. Ao todo, 10 denominações se articularam para realizar uma vasta programação que durou 04 dias. O evento teve como objetivo valorizar a mulher nos espaços sociais, na comunidade e na família;  mobilizar as igrejas para que suas ações tenham um impacto social;  cumprir uma ação de missão integral através da evangelização e do contato com as pessoas. “Esta é uma ação que está para além da transmissão de conhecimentos e conscientização das pessoas. É um trabalho que preserva, valoriza e gera vida na ordem de percepções dos valores sociais e espirituais”, define Enéias Pinheiro, presbítero da Igreja Assembleia de Deus. 

Foram realizados debates e palestras sobre os temas HIV/Aids, câncer de mama e a importância da mulher missionária, além de ciclos de oração. Seiscentas pessoas participaram diretamente dos eventos, outras 1.500 tiveram relação indireta com a programação, ou seja, acessaram informações sobre os temas abordados no evento. 

O uso da comunicação com o intuito de garantir intensa participação do público foi assegurado pelos organizadores. Carros de som, emissoras de rádio e as lideranças das igrejas, a todo o momento, divulgavam as atividades do Dia 08 de Março. Pelo visto, deu certo. É o que comprova Dona Francisca Maia, 65 anos, que participou das comemorações. “Pra mim, foram muito importantes, tanto a palestra que participei sobre câncer de mama quanto o momento de confraternização com as mulheres das outras igrejas.”

Para realizar a atividade, o grupo teve que superar algumas dificuldades. Em virtude da falta de acesso à informação, muitas mulheres não demonstravam, inicialmente, interesse em se envolver com a programação. Sem contar que muitas delas são as únicas responsáveis pelos afazeres do lar e, com isso, não dispõem de tempo para atividades externas. O primeiro entrave foi superado com um trabalho árduo de articulação, conscientizando o público-alvo dos benefícios sociais trazidos pelo evento. Como alternativa à falta de tempo das mulheres, a OPU realizou eventos ao longo dos 3 turnos do dia, oferecendo mais possibilidades de horários às participantes. 

Em pouco tempo de retomada das atividades, a OPU já colhe frutos de suas ações. Escolas e grupos de jovens do município têm convidado a Ordem para a facilitação de palestras com os pais dos alunos e a comunidade. No cotidiano das igrejas, muitas mulheres têm procurado saber mais informações sobre assuntos relacionados à saúde e a outros temas de seus interesses. As primeiras mudanças são comemoradas pelos integrantes da OPU e têm motivado os líderes a planejar o futuro. “As mudanças se darão em longo prazo, porém resultados imediatos já começam a aparecer, quando se escuta a população fazendo referência ao evento como uma iniciativa pioneira e, sobretudo, valiosa, entendendo que as igrejas são importantes nesse processo de apoio e colaboração à sociedade”, diz Aluísio Otaviano, pastor da Igreja de Cristo. 

A OPU conquistou adesões em nível territorial. Para o evento do Dia Internacional da Mulher, a Ordem mobilizou 9 igrejas das regiões do Sertão do Apodi e Alto Oeste Potiguar e, se depender das expectativas dos líderes das igrejas, irá fazer a diferença na luta pela defesa de direitos no oeste do Rio Grande do Norte. “Nossa intenção é avançar na perspectiva de alcançar outros municípios com a mesma intenção de organizar e mobilizar igrejas para contribuir socialmente nas questões que afligem seu povo”, conclui Jonildo Pessoa, presidente da OPU.



Da Diaconia.org por Adriana Amâncio

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